12 September, 2008

Grandes campeonatecos do rugby mundial! (Parte II)

Finalmente, a segunda parte da série sobre os campeonatecos mais importantes do rugby internacional. Hoje vamos ver os torneios disputados dentro do Tri Nations:

BLEDISLOE CUP
Quem disputa:
Austrália
Nova Zelândia



Este é o mais tradicional campeonateco de rugby do hemisfério sul, símbolo máximo da rivalidade entre os All Blacks e os Wallabies. O nome é uma homenagem a Lord Bledisloe, Governador-Geral da Nova Zelândia, que doou o troféu.

Foi disputado pela primeira vez em 1932 e até 1982 era disputado irregularmente, com intervalos que variavam de dois até oito anos entre cada disputa. A partir de 1996, com o advento do Tri Nations, a Bledisloe Cup passou a ser pleiteada dentro do próprio torneio, normalmente em uma melhor de 3 partidas (2 em ano de Copa).

A Nova Zelândia têm ampla vantagem no número de títulos: os All Blacks ergueram a taça 27 vezes, contra 12 dos Wallabies. Desde 2003, o troféu está em domínio neo-zelandês.

Neste ano, pela primeira vez desde 1962, o campeonateco será decidido em 4 partidas, com o quarto jogo disputado pela primeira vez fora dos dois países. O último confronto será realizado em Hong Kong, em mais uma daquelas tentativas de popularizar o rugby no continente asiático.

Muitos leitores já estão me chamando de mal informado, incompetente, corno e viado só porque falei há alguns posts que o vencedor da última partida do Tri Nations, entre Austrália e Nova Zelândia, levaria a Bledisloe Cup. Todavia, antes de me apedrejarem, saibam que o ruído na comunicação ocorreu até mesmo na imprensa especializada da Austrália, que deu exatamente a mesma barriga. E isso que não foi em blog, foi no Rugby Heaven!

UPDATE: A Bledisloe Cup será entregue no último jogo do Tri Nations somente se a Nova Zelândia vencer. Como os All Blacks ganharam a última edição do campeonateco, basta vencer dois confrontos de quatro para manter a taça.

FREEDOM CUP
Quem disputa:
Nova Zelândia
África do Sul



Um campeonateco entre Nova Zelândia e África do Sul seria uma ótima idéia, já que os dois países têm um histórico de rivalidade muito forte, que geralmente se estende para fora de campo. Desde a turnê dos Springboks pela Nova Zelândia em 1981, que resultou em quebra-pau generalizado pelas ruas do pacato país da Oceania, os confrontos entre os Springboks e os All Blacks costumam pegar fogo. (Observe que o episódio da turnê dos Springboks em 1981 e todas suas implicações políticas e sociais são assunto para um post em separado. Além disso, quando digo “quebra-pau” na Nova Zelândia, estou me referindo a um tipo mais leve de arrastão. Certamente algo que um brasileiro tiraria de letra…)

No entanto, como o campeonateco foi criado apenas em 2004, para ser um equivalente sul-africano da Bledisloe Cup, a disputa do troféu tem sido meramente decorativa, pois por mais que a intenção seja interessante, não há como cravejar décadas de rivalidade em uma troféu oportunista, inventado há pouco tempo.

A Nova Zelândia conquistou o troféu mais vezes: são 3 títulos dos All Blacks contra um dos Springboks, desde 2004, quando a primeira edição foi disputada. (Na foto, o capitão dos All Blacks, Richie McCaw, levanta o caneco.)

MANDELA CHALLENGE PLATE
Quem disputa:
Austrália
África do Sul



Outro campeonateco recente e de menor importância. Foi disputado pela primeira vez em 2000, com vitória da Austrália. Inicialmente, a intenção era disputá-lo a cada dois anos, mas desde 2005 funciona no mesmo modo da Bledisloe Cup: melhor de 3 partidas, dentro do Tri Nations.

A Austrália ganhou o prato esse ano, após ganhar 2 dos 3 jogos contra os Springboks no Tri Nations. Com essa vitória, foi o quarto título dos Wallabies desde que o campeonateco começou a ser disputado. Os Springboks somam duas conquistas.

(As fotos da Bledisloe Cup e do Mandela Challenge Plate foram obtidas no ótimo site da Australian Rugby Union, que tem foto de tudo quanto é troféu que os Wallabies ganharam até hoje. Ao contrário de outras federações que não estão nem aí para esses gloriosos troféuzitos, a ARU mantêm viva a memória dessa prataria esquecida e empoeirada!)

12 August, 2008

Grandes campeonatecos do rugby mundial! (Parte I)

No rugby internacional, existe uma tradição entre as nações fundadoras (e algumas nações emergentes) de disputarem competições perpétuas entre si. Estes campeonatecos são disputados sempre que uma seleção enfrenta a outra, podendo ou não estarem colocados dentro de um campeonato maior (normalmente Six Nations ou Tri Nations). Seria mais ou menos como Inter e Grêmio disputarem uma hipotética Copa Ênio Andrade - ou melhor ainda - um Troféu Tesourinha, toda vez que se enfrentassem em um Campeonato Gaúcho ou Brasileiro.

Talvez porque o rugby de primeiro nível seja uma panelinha dos diabos, estes troféuzitos proliferaram-se como moscas no calendário internacional. Hoje, quase todo o país que ocupa as 10 primeiras posições do ranking da IRB disputa uma meia dúzia de campeonatecos ao longo do ano. A maioria, no entanto, é meramente decorativa, por ter sido inventada há pouco tempo. As copinhas levadas mais a sério são, obviamente, as mais tradicionais.

Hoje, iremos ver os campeonatecos que são realizados dentro do Six Nations:

CALCUTTA CUP
Quem disputa:
»Inglaterra
»Escócia


Esse lindo bule-de-café é simplesmente a competição de rugby mais antiga do mundo, tendo sido disputada pela primeira vez em 1879.

O troféu tem uma história muito bonita: é uma espécie de Jules Rimet ao avesso. Após a realização de um jogo entre Escócia e um combinado da Inglaterra, Irlanda e País de Gales na cidade de Calcutá, na Índia, a pernóstica população britânica local resolveu criar um clube de rugby, que ficou conhecido como Calcutta Football Club.

Logo no início, tudo ia bem para a massa calcutense. No entanto, após alguns anos, o clube entrou em crise e foi obrigado a fechar as portas. A diretoria do Calcutta FC então sacou todas as rúpias de prata que tinham sobrado na conta do time, e ordenou que as moedinhas fossem derretidas para a fabricação do bonito caneco da foto, que seria doado à Rugby Football Union (entidade máxima do rugby na Inglaterra). A única condição era que o troféu deveria ser disputado anualmente. A RFU então optou por realizar um confronto anual entre Escócia e Inglaterra, tradição que segue até hoje. Atualmente, a disputa ocorre sempre que as duas seleções se encontram no Six Nations, e quem está com a taça no momento é a Escócia.

Olhando o tamanho do caneco, a conclusão é que ou faltou empreendedorismo para a diretoria do Calcutta FC, ou a economia da Índia estava muito inflacionada, naquela época. Com essa prata toda aí, o time só quebra se for administrado pelo governo brasileiro.

CENTENARY QUAICH
Quem disputa:
»Irlanda
»Escócia


Segundo o dicionário Merrian Webster, “Quaich” é um antigo utensílio de origem escocesa, usado para beber líquidos. O receptáculo tem uma origem que remonta à idade média: naquela época, os escoceses não sabiam qual a quantidade exata de whisky que poderiam beber no café-da-manhã, sem prejudicar o restante do dia (ou melhorar, dependendo do ponto de vista do leitor). Após muita discussão, a Igreja definiu que a dose saudável era o equivalente a um penico cheio de trago. Como penicos já eram usados para outras coisas, os escoceses criaram um utensílio semelhante, e batizaram-no de Quaich. (A propósito, essa história é totalmente inventada).

O Penico Centenário foi disputado pela primeira vez em 1989. Funciona da mesma forma que a Calcutta Cup: um jogo anual entre dois países, dentro do Six Nations. Quem atualmente está com a taça é a Irlanda.

Aparentemente, este é um campeonateco meio vagabundo, tanto que eu nem consegui achar uma foto do maldito troféu. O quaich que você está vendo aí em cima é um quaich genérico.

TROFÉU MILLENIUM
Quem disputa:
»Irlanda
»Inglaterra


Outro campeonateco nos mesmos moldes dos anteriores, desta vez entre Irlanda e Inglaterra. A primeira edição foi em 1988. O vencedor ganha um troféu no formato de um chapéu de viking. A atual campeã é a Inglaterra, mas quem está comemorando na foto são os irlandeses.

TROFÉU GIUSEPPE GARIBALDI
Quem disputa:
»Itália
»França


O mais gaúcho dos campeonatecos de rugby! Foi criado para ser um equivalente franco-italiano de competições como o Millenium Trophy e a Calcutta Cup. A primeira edição foi em 2007, e desde então, a França mantêm o caneco em sua sala de troféus. (”Caneco” é uma nomenclatura bastante elogiosa, pois esse troféu está mais para uma instalação de Bienal).

Em breve, mais campeonatecos do rugby internacional!

11 January, 2008

Barbarians: O Trianon do Rugby

Filed under: História do Rugby


Depois de um mês inteiro apenas assistindo jogos do tipo “Amigos da Onça x Seleção de Craques, Viúvas do Garrincha x Filhos de Pelé, Médicos x Transplantados, Motoristas x Atropelados, Jogo contra a fome, Jogo beneficiente para comprar uma sunga para o primo do Claudiomiro, etc.”, nada melhor do que um post sobre um dos times festivos mais famosos do rugby, o Barbarian FC.

Em 1890, William Percy Carpmael realizava uma turnê pela região inglesa de Yorkshire, jogando rugby com um time formado às pressas. Contrariando as expectativas, a turnê foi uma verdadeira Copa Dubai para William e seus amigos. A equipe genérica apresentou excelente nível de jogo e proporcionou muita diversão aos atletas, além de dar muito trabalho aos adversários.

Como não era trouxa, William sabia que ficar dando volta pelo país enchendo a cara e batendo uma bolinha não era o tipo de coisa que deveria ser feito apenas uma vez na vida. Foi então que surgiu o Barbarian Football Club: uma equipe itinerante e comprometida com um rugby ofensivo, empolgante e, acima de tudo, limpo. Esse ideal seria eternizado pelo lema do clube: “O rugby é um esporte para cavalheiros de todas as classes, mas nunca para vagabundos, seja qual for a classe” (o “vagabundo” eu acrescentei livremente; a tradução ideal seria “mau esportista”).

Além do comprometimento com o cavalheirismo, o Barbarian inovava pelo seu progressismo, pois determinava que qualquer jogador poderia vestir a camisa do clube, independente de sua classe social, raça ou credo. Para ser convidado pelos Barbarians, bastava ter habilidade e espírito esportivo. É claro que naquele tempo, tanto no rugby quanto no futebol, negros tinham acesso dificultado a atividades desportivas. Portanto, fica meio difícil saber se essa regra foi seguida à risca ou se não passou de uma enrolação que, de tão hipócrita, faria telejornalista gaúcho corar.

Os Barbarians jogam com camisas listradas em banco e preto e calções pretos desde sua fundação. Seu uniforme também apresenta uma curiosa exceção à regra geral: os jogadores conservam as meias da sua equipe de origem, como você pode ver na foto abaixo:


Apesar de assemelhar-se a um enfadonho Trianon, aplicando ao mundo do rugby coisas como gols de bunda do Assis, as partidas dos Barbarians são levadas a sério e estão enraizadas na cultura do esporte de forma quase ritual. A influência do time é tão marcante no rugby que, segundo a opinião geral, o maior try coletivo de todos os tempos foi marcado em uma partida da equipe contra o All Blacks em 1973. Veja abaixo como foi. (Repare que em 0:58 tem um passe para a frente, que o juíz não apitou para evitar ser morto a pauladas por uma horda de cavalheiros com espírito esportivo…).


14 November, 2007

Ray Gravell: 1951 - 2007 (Quem?)

Ray Gravell (foto, barbudo), uma das maiores lendas do rugby no País de Gales - lugar onde o esporte é extremamente popular - faleceu há duas semanas, aos 58 anos de idade (você ouviu primeiro aqui!). Ray não conseguiu resistir a várias complicações provocadas pela diabete, doença com a qual lutava desde 2000. Deixa na latrina-de-Deus esposa e duas filhas.


Normalmente, nem escreveria um obituário para alguém que desconhecia até semana passada, mas o seu falecimento aconteceu exatamente no mesmo dia da inauguração desse blog: 31 de Outubro de 2007. Creio que uma homenagem é válida. Além disso, Gravell possui uma bonita história de vida, que merece ser relatada. Com a bênção da deusa celta da desinformação, Googlyel, apresentarei a vocês um dos maiores jogadores da história desse esporte!

Nascido em 1951 na cidade de Kidwelly, Ray Gravell cresceu e viveu na vizinha Mynydd-y-Garreg (pronuncia-se Munudugarrreg). Filho de um minerador de carvão, Ray teve momentos difíceis em sua juventude. Ainda garoto, encontrou o corpo do pai que se suicidara perto de casa. O episódio teve um profundo impacto na vida do jovem Ray, mas segundo fontes, não abalou a sua disposição. “Grav”, como era conhecido pelo público, sempre esbanjou simpatia e jovialidade, onde quer que fosse. Sua alegria era tanta que fez brincadeira mesmo após ter uma de suas pernas amputadas, devido à sua enfermidade. Fez alusão ao fato do chute nunca ter sido o seu forte. Mais tarde, apareceu em um programa de televisão ostentando orgulhosamente uma prótese feita com madeira galesa legítima.

(É necessário acender o alerta para o heroísmo post-mortem nesse exato parágrafo. É de conhecimento popular a tendência do ser humano para cobrir de elogios o primeiro defunto que dobra a esquina. Não obstante, afirmo que ainda é possível discernir traços positivos no caráter de um recém-expirado, baseado nos elogios que lhe são atribuídos. Quando alguém é agradável e bem intencionado, observa-se uma freqüência maior na citação dessas qualidades em diversos serviçais fúnebres. É o que observo nos obituários de Ray Gravell. No entanto, quando alguém passou a vida inteira enchendo o saco, é normal ouvir algo do tipo “Era um marido íntegro e um pai responsável. Um homem que lutou pelo o que acreditava. Desenvolveu com competência seu ofício como fiscal de Tesouraria, atividade que exerceu durante 45 anos”, etc.)

Gravell jogava de centro. Ficou famoso pelo seu vigor defensivo, sua velocidade e principalmente, seu aguerrimento, quase lendário quando defendia a seleção de seu país. Jogou durante toda a sua carreira no Llanelli (pronuncia-se Hshlanehshli), onde ajudou a equipe a conseguir uma vitória antológica contra o All Blacks, em 1972. Vestiu a camisa da seleção galesa 23 vezes (número alto para o rugby, naquele tempo) e representou os Lions, uma seleção de atletas britânicos e irlandeses, em notória turnê contra a África do Sul em 1974.

Depois de pendurar as chuteiras, Ray virou comentarista esportivo da BBC de Gales e até atuou em alguns filmes, contracenando com o excelente Jeremy Irons e com a MILF tesão Juliette Binoche. Falante nativo do idioma galês, Grav era fortemente ligado à cultura do seu país, inclusive participando de cerimônias folclóricas. Na foto abaixo, o craque segura uma espada grande, no centro:


Eis um homem que, mesmo usando barba a vida inteira, sempre teve o prestígio de todos. É um privilégio para poucos. Com certeza, deixará saudades na sua terra!























Get free blog up and running in minutes with Blogsome
Theme designed by Naoko M