Caça à gazela

Se na Irlanda, a mão vermelha é garantia de arranca-rabo ideológico, na África do Sul, outro símbolo tradicional está dando o que falar: o springbok.
O chefe da Comissão Parlamentar dos Esportes, Butana Komphela, iniciou uma campanha para abolir o símbolo máximo do rugby sul-africano, por entender que o serelepe veadinho divide a nação. Os opositores do antílope afirmam que o emblema é um resquício do Apartheid, quando negros e outros não-brancos eram proibidos de participar das seleções nacionais da África do Sul.
A simpática gazelinha é sinônimo da seleção de rugby sul-africana desde 1906 e já apelidou outras equipes esportivas no país, como é o caso da seleção de Cricket. Porém, sua fama internacional veio apenas com o esporte da bola oval. Como na África do Sul, o rugby sempre foi considerado domínio quase que exclusivo dos brancos, o pobre animal ganhou, sem querer, uma conotação racista.
Na verdade, há ocorrências do uso do springbok como símbolo sul-africano fora do esporte e para defender causas totalmente contrárias ao Apartheid. Este texto do Mail & Guardian, da África do Sul, conta a história da Springbok Legion, um movimento de oposição às políticas fascistóides e racistas que ganhavam força no país africano após o fim da Segunda Guerra Mundial.
Infelizmente, a decisão de Butana Komphela é muito menos uma tentativa de unir o país, e muito mais uma atitude oportunista. Segundo a imprensa australiana, Komphela participou da festa dos Springboks na Copa do Mundo da França em 2007 e estava todo alegrinho na ocasião, vestindo o uniforme da seleção e tudo mais. Se considerasse a gazela tão vergonhosa, não estaria brindando com a camisa verde.
Komphela também parece ter se esquecido que Nelson Mandela, demonstrando grande sabedoria, resolveu adotar a gazelinha como um símbolo de mudança, ao invés de apelar para um revanchismo israelopalestínico. Em 1995, após a seleção do seu país conquistar a Copa do Mundo, o então presidente da África do Sul vestiu abrigo e boné dos Springboks e entregou a taça nas mãos do capitão François Pienaar.
Um antílope, por si só, não vê diferenças entre um homem branco e um homem negro. Pelo contrário, fugiria dos dois da mesma maneira. O antílope sabe que, quando tem homem no pedaço, está arriscando tomar um tiro de espingarda no lombo. Se forem implicar com a gazela, pelo menos façam afirmando que ela é um mascote de fresco!
(Após muito bate-boca, defensores e opositores da gazela entraram em um acordo para pôr fim à polêmica do springbok. O combinado é que agora, além do springbok, a camisa da seleção de rugby sul-africana envergará também a Protea, flor símbolo do país e do esporte sul-africano. Para nós brasileiros, não deixa de ser um consolo saber que em outros países com democracias jovens, os políticos também ocupam seu tempo discutindo coisas absolutamente inúteis.)
