Sangue nas mãos
No post Bandeiras e Bombas, escrevi sobre a questão dos símbolos nacionais irlandeses. Ciente de que o leitor comum provavelmente adormeceu no segundo parágrafo, reservei um post em separado para falar da parte mais interessante da história: a origem da mão vermelha de O’Neill, um dos símbolos mais famosos da província de Ulster. Tão famoso, que está presente em bandeiras regionais e nos distintivos de clubes esportivos, como é o caso do Ulster Rugby:

Segundo o folclore irlandês, houve uma época em que o trono de Ulster estava sem um herdeiro legítimo. Dois homens candidataram-se a ocupá-lo: um era Dermott, e outro era O’Neill. A população ficou dividida, e muitas batalhas foram travadas entre os partidários de O’Neill e os partidários de Dermott. O rei da Irlanda, irritado com o impasse, propôs que o rei de Ulster fosse decidido em uma regata. Os dois postulantes atravessariam um lago, e o primeiro a chegar do outro lado seria proclamado rei.
A regata foi disputada proa a proa, e tudo indicava que a decisão ficaria para o ainda-não-inventado photochart. Porém, Dermott assumiu a ponta no final da prova e já preparava-se para comemorar, vestindo uma camiseta com os dizeres “100% ULSTER”. O’Neill, no entanto, amava tanto aquela terra que resolveu, em um esforço desesperado, cortar a mão fora e atirá-la na margem do lago. Então, a mão de O’Neill aterrisou na areia, tingida de sangue e vitoriosa! O rei da Irlanda, demonstrando pouco rigor em sua decisão, declarou O’Neill (e não apenas a sua mão) o novo rei de Ulster!
A versão oficial da lenda afirma que O’Neill cortou a mão porque era tão apaixonado por Ulster, que estaria disposto a qualquer sacrifício para ser o rei daquela terra. Na minha opinião, decepou a própria mão porque estava embriagado pelo poder! Perder o trono em uma regata era inaceitável para o ganancioso O’Neill, que preferia - literalmente - perder uma parte do seu corpo a perder a coroa. Sempre que os olhos de um homem brilham diante da sensação de poder, alguém perde a mão, o braço, a perna e - principalmente - a cabeça! Quem poderia garantir que a próxima declaração de amor à Ulster não viria sob a forma de gargantas inocentes vertendo sangue? Ninguém, até hoje!
Historicamente, a mão vermelha de Ulster é um símbolo ligado à cultura gaélica. É esse o sentido buscado pelos clubes esportivos da região, que adotam a mão em seus escudos. Entretanto, nos tempos modernos, a mão vermelha passou a ter uma identificação mais forte com os unionistas, que defendem a permanência da Irlanda do Norte no Reino Unido. Dois grupos paralimitares legalistas, de oposição ao IRA, fazem referência ao símbolo em seus nomes: um é o Red Hand Commando, e o outro é o Red Hand Defenders. Assim como a cruz suástica, que existia há mais de dois mil anos, a mão vermelha de Ulster parece ter perdido a sua simbologia original, graças a uma deturpação política.

Lembrando que Ulster fica na divisa entre a Irlanda (1/3 dos condados) e a Irlanda do Norte (2/3 condados), tendo Belfast como sua “capital”.
Como o único esporte que une a ilha (aka as “Irlandas) joga junto é o rugby não tem nenhum problema entre eles.
Abraço e DÁ-LHE GRÊMIO!!!
GO MUNSTER!!!
Comment por Guillermo — 2 January, 2009 @ 6:58 pm
Ótima história Hilton! Os amantes de simbolos, bandeiras e decaptações não se contém de alegria ao ler.
Em breve: a história da mão amarela da bandeira da argentina.
Abraço e Dá-lhe Grêmio!!!
Comment por Menezes — 10 January, 2009 @ 2:10 am
Tomei a liberdade de linkar mais este genial post.
Comment por Menezes — 10 January, 2009 @ 2:55 am
Obrigado, cara. Sinto-me honrado.
Dá-lhe Inter!
Comment por Hilton — 11 January, 2009 @ 1:15 pm