Mesmo sem doar dinheiro à Igreja Renascer, Kaká comete equívoco.

“Pode perguntar para qualquer um que está aqui, todos vão dizer que pagariam para jogar futebol e estar na seleção. Eu pagaria para ser jogador de futebol, porque é a minha paixão. Claro que, depois, com o seu talento, você faz dele uma profissão, e se torna bem remunerado. Mas a paixão permanece”
Essas foram as palavras do jogador Kaká (foto), no último dia 14, ao receber homenagem na calçada da fama do Maracanã.
Todos sabemos que pagar para jogar na seleção é um exemplo meramente hipotético. Mas considerando que o chavão pronunciado por Kaká pudesse se tornar realidade, por que alguém pagaria para vestir a amarelinha e empatar em casa com o Colômbia? Seria realmente por paixão? Ou haveria outros motivos por trás desse gesto aparentemente nobre?
Kaká parece que se esqueceu de citar a famosa “sede de nomeada”, expressão que tomamos emprestada da cria de Machado de Assis, o defunto-autor Brás Cubas. É o ardor de ver o nome estampado em letras colossais. É a glória de ver milhares berrando um nome - o seu - em um frenesi histérico. É o seu rosto em propagandas, em televisores, outdoors, e o seu pélvis colado a mulheres estonteantes. Com tamanho lucro ao ego, o bolso sequer acusa o prejuízo.
O meia-atacante do Milan e da seleção completa: “Não se trata de dinheiro, mas de um sentimento de orgulho. Não somos um exército, no sentido de ser a pátria de chuteiras, mas me sinto orgulhoso de defender o meu país quando entro em campo com a seleção”
Orgulho é pecado, Kaká. Está na Bíblia. Um garoto tão religioso não deveria se deixar seduzir por essas extravagâncias mundanas.
A situação é hipotética apenas para a seleção de futebol. Para a seleção de rugby, é preciso efetivamente pagar para jogar. É o que diz Ramiro Mina, o Mocho, capitão da equipe que bateu Trinidad e Tobago na última semana. Em entrevista para o Blog do Martoni, o jogador afirma que “mais uma vez, jogadores e comissão, (…) tiveram que pagar de seu bolso muitos dos custos desta viagem e preparação (transporte em Miami, hotel em Miami, todas as refeições em Miami e Trinidad, hotel em Trinidad, custos com vistos e taxas, etc).”
Estima-se que alguns atletas chegam a desembolsar até 5000 reais para representar o Brasil.
No jogo de volta contra Trinidad e Tobago, em São José dos Campos, os jogadores da seleção, liderados pelo centro Fernando Portugal, resolveram até mesmo organizar uma vaquinha solidária para ajudar nos gastos dos atletas. Quem comparecesse no estádio para prestigiar a seleção, poderia ajudar os jogadores com uma doação de dez reais (o preço do ingresso,antes da decisão de tornar a partida aberta ao público).
Ou seja, para ser jogador da seleção de rugby por sede de nomeada, é preciso ter um raciocínio no mínimo excêntrico, pois ninguém conhece o esporte no Brasil. Se existe alguma seleção onde os atletas defendem o país por gosto, e não só pagariam, como pagam para isso, é a seleção de rugby.

Muito bem dito. Cada vez dá menos vontade de acompanhar o futebol… isso não é esporte mais, é espetáculo na pior acepção da palavra.
Comment por Igor - Vitória Rugby — 28 October, 2008 @ 11:08 am
Eu adoro futebol, mas só consigo torcer pelo meu time. Já larguei de mão o Ricardo Teixeira’s Team há décadas.
Comment por Hilton — 28 October, 2008 @ 3:30 pm